sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Empoderamentos 3: Os novos pais

   Tolstói disse que os homens deveriam libertar as mulheres para serem, eles também livres. De fato, as mulheres que conquistam a liberdade sonhada, liberam os homens do compromisso para com elas. É uma liberdade que tem seu preço, obviamente – a responsabilidade, que alias é o preço de toda liberdade. Homens livres, mulheres livres. Sonho de consumo, que só funciona na prática, se os dois se ajudarem a serem realmente livres. Não é tão simples. 
   Num episódio a que assisti naquele canal feminista, que todo mundo sabe qual é (eu não preciso dizer o nome), e que determina a moral e o comportamento dos brasileiros, falava-se dos novos pais. Um deles veio para o Rio e ficou a cuidar das filhas enquanto a mulher trabalhava. Ele sentiu-se “vagabundo” no início, disse que seus avós e bisavós mortos "clamavam" dentro dele pra ir à luta ( e, ora homem, por que você não foi?), mas, o programa deu a entender que ele superou o conflito e está bem assim invertendo o papel com a sua mulher. E lá aparecia ela chegando em casa com cara de executiva poderosa, de terninho - a roupa clássica da mulher empoderada - enquanto ele ,dava banhos nas filhas e tocava violão com elas.  Ele, inclusive disse que acha que está antecipando o futuro, que “quem sabe como serão as famílias no futuro?”, se não serão assim....
   Como assim?  Então no futuro, devo esperar que os homens  virem donas de casa à moda dos anos 50 e as mulheres, homens que sustentem a casa?  Será que as mulheres estão querendo isso?!?!?!?Uma troca dos valores machistas pelos feministas radicais?
   Num filminho besta americano: “ 5 anos de noivado” , um casal passa por uma situação semelhante. Ele é um chef de cozinha bem sucedido, mas ela é uma acadêmica que consegue uma vaga em outro estado, no setor de psicologia. A vaga dos seus sonhos. Então ele abre mão do emprego seguro no seu restaurante para acompanhá-la. Não preciso dizer a crise pela qual ele passa enquanto a noiva prospera no tão sonhado emprego – que, por sinal era quase uma piada- mas o filme era uma comédia e americana, portanto o espectador só tem que seguir a história sem se ater a esses “detalhes”. O fato é que ele vai pirando aos poucos. Deixa a barba crescer de uma maneira horripilante e fica meio louco, meio selvagem. Ao final, eles chegam a uma solução, com um food truck que podia ir e vir entre as cidades, pra que ela não sacrificasse o seu emprego e ele voltasse à ativa. Mas na vida real não é tão fácil.

Jason Segel e Emily Blunt em "Cinco anos de noivado"

   Lembro-me  de como eu também fiquei meio louca quando fiquei em casa só cuidando de filha.Ninguém sabe a depressão  que é não ter um objetivo na vida, a não ser que se passe por isso.
    Foram anos ruins, excetuando a maternidade, que era a parte boa.
    Em geral vejo aqueles anos como um abismo, um vácuo, um certo vazio...como se eu estivesse hibernando...
   Foi difícil voltar à tona e acho que até hoje sinto o peso de não ter começado mais cedo...seja como for, o que quero dizer é que ninguém deve abrir mão daquilo o que quer ou precisa fazer, mesmo quando isso envolva uma outra pessoa “ parceira pra vida toda”. Primeiro porque sabemos que a vida toda, pode não ser “a vida toda”, como não foi no meu caso. Um dia o parceiro se vai e ficam as feridas e uma sensação de que recomeçar não é fácil e que você devia tê-lo feito antes. Quanto mais rápido você lutar por sua independência, melhor pra você...
   Talvez o emprego dos sonhos deva ser sacrificado se você ama alguém e vai anular aquela pessoa...ninguém merece ser um peso nulo na vida e, definitivamente, não nascemos pra isso. Nem homens nem mulheres.
   Se ser feminista envolve tornar o homem um fraco, abro mão disso. Do meu lado quero um homem forte, como eu mesma quero me sentir forte...e a gente sabe como a vida , dificilmente  nos permite (ainda mais nesse país) essa condição da força...



terça-feira, 7 de novembro de 2017

Empoderamentos 2: Jane Austen para mulherzinhas


Elizabeth Bennet (Keira knightley)


    Eu sou leitora de Jane Austen. Li até Persuasão com aquela heroína insuportável.  Que heroína é Anne Elliot? Tão chata, tão correta, com seu convencionalismo inglês, que dá saudades da “falta de esperteza” de Catherine Morland   em “A Abadia de Northanger”...
   Jane Austen viveu num tempo em que as mulheres não tinham direito a nada, viviam numa prisão, sem direito a herança, sem direito a assinar contratos e reger a própria vida,  com uma educação parca e tudo o que lhes restava, na melhor das hipóteses, era ler romances, aprender línguas, costurar, tocar piano e esperar por um bom casamento. Quando não acontecia, ela era uma espécie de pária na sociedade, sofrendo todo tipo de pressão e bullying social.
    Não é incomum um diálogo didático nos livros de Jane Austen sobre os direitos (inexistentes) das mulheres. E ela acabou sendo fortemente associada ao feminismo, por conta de tudo isso. Mas suas heroínas destroem essa imagem: a própria Anne  -  abnegada, convencional, e excessivamente pura , por exemplo.  Como afirmar esse feminismo numa escritora que escreve coisas como esse trecho que aparece em Persuasão num diálogo entre Anne  e a Sra. Smith:

“- Mas ela não era uma mulher muito inferior?
- Era, e eu levantei objeções, mas ele não me prestou atenção(...)”

   A noção de “mulher inferior”, com o preconceito politicamente incorreto de Anne Elliot não combina nem um pouco com o feminismo de nossos dias, que  com certeza  , não estaria disposto a aceitar essa linha de raciocínio...
   Muitas vezes Jane cria mulheres infernais, chatas, neuróticas, que têm ao lado maridos pacientes, como é o caso de Mary e Charles em “Persuasão”, e Charlotte Palmer de “Razão e Sensibilidade”.
Todas as heroínas de Jane Austen procuram um homem, um casamento, ao final. Elas fogem da solteirice como o diabo da cruz.
   Os finais, embora rápidos e meio frustrantes, são sempre felizes e depois de muita incompreensão e abismo entre as partes, lá está a heroína nos braços do amado, alguns duvidosamente generosos, como eu senti em Henry Tilney de “A Adbadia de Northanger”, um verdadeiro rei de ironias cortantes, mas como Catherine Morland, era uma ingênua e o livro  é uma paródia romântica, cujo ridículo das situações fica evidente o tempo todo,  o divertimento é garantido. Sem falar que as espetadas de Jane Austen (ela é a mestra da ironia fina) estão super afiadas neste seu livro, que é o primeiro e um dos meus preferidos. Eu diria que o grande personagem deste livro é a própria narradora intrusa que Austen constrói e que tira sarro o tempo todo da personagem que criou: romântica, bobinha e facilmente manipulável...mas, pra variar, uma personagem inesquecível!
   Talvez as feministas considerem que a narradora seja uma feminista, que sacaneia a própria personagem que criou , a fim de mostrar como as mulheres eram manipuláveis pelo romantismo vigente. Mas é um nó cognitivo muito grande realizar essa operação mental, pois que Jane dá um final romântico a essa mesma personagem, ou seja, ela não abdica do padrão de comportamento que ela mesma criticou...
    Sobre os personagens masculinos , alguns até “malvados” e sem caráter aparecerão, como Whillowgby,  de “Razão e Sensibilidade” que ainda assim é perdoado por Marianne Dashwood. 
   Marianne é considerada uma feminista segundo alguns estudos acadêmicos, por ter o temperamento imprevisível, “descontrolado” e anticonvencional. Mas, nem tudo é o que parece e um comportamento imprevisível não é, necessariamente, sinônimo de rebeldia feminista...
(Como se uma feminista dessas atuais pudesse amar como Marianne, com aquela entrega total e absoluta, o que eu duvido e muito!!!).

Marianne(Kate Winslet)  no filme de Ang Lee

    O “feminismo” de Marianne se redobra ao final, num conformismo que a faz aceitar a mão do Coronel, já que teve o seu amor por Willowghby, frustrado. Ora, ela não é uma feminista no sentido clássico da palavra, longe disso.  Ela é passional, de um passionalismo  sem limites, razão pela qual, ela explode as comportas e faz entornar as vias do bom comportamento. Marianne manda o convencionalismo às favas porque não consegue ser de outro jeito, seus sentimentos a impedem. Isso fica muito claro o romance inteiro. E,  a não ser que a pessoa não tenha lido o livro aqui citado com o devido  cuidado de não tentar só enxergar exatamente aquilo   o  que quer encontrar nele,  é impossível não constatar que não há nenhuma ideologia ou necessidade de afirmar um caráter revolucionário e feminista no comportamento dessa personagem.
   Marianne ama o amor, antes de tudo. E seu final  fica longe do que se esperaria de uma personagem tão violentamente passional. Ao contrário de encontrar um amor maduro e construir sua “individuação como figura mais equilibrada e racional”, como costumam afirmar os estudos feministas, numa forçação de barra duríssima e muito cara de pau, eu diria que ela encontrou consolação e uma paz na falta de um amor verdadeiro, sufocando sua natureza apaixonada...
   Dentre os personagens masculinos, eu diria que o meu preferido,  o  mais maravilhoso, distante, passional, complexo e contraditório é o Senhor Darcy, o “metidão”  de “Orgulho e preconceito”.

Matthew Mc. Fadyen vivendo |Darcy


    O Sr. Darcy é um manipulador poderoso: considera a família de Elizabeth Bennet  “inferior”, os modos das suas irmãs e até da sua mãe, e aproveitando-se da influência que tem sobre o amigo, Charles Bingley ( que se apaixona por Jane , a irmã de Elizabeth)  o convence, com seus modos elitistas e orgulhosos,   a afastar-se  da família Bennet , mas não hesita em conquistar  a mesma  Elizabeth, para quem ele confessa depois, que lutou contra os próprios sentimentos, mas não pôde evitá-los. Quando rejeitado, diz ofendido:

“É essa a resposta que devo ter a honra de esperar? Talvez eu quisesse ser informado porque sou assim recusado. Sem sequer uma tentativa de polidez (...)”

   (É, ele se “acha” muito mesmo!!!)
   “Orgulho e preconceito”, é tido como um livro também feminista...embora Darcy seja o macho alfa fodão que resolve todos os problemas, rico e poderoso, que compra , inclusive a reputação quase perdida da irmã de Elizabeth(uma ingênua fogosa que caiu na conversa de um mau elemento), numa verdadeira história de Cinderela salva pelo príncipe encantado...
   Como esse livro pode ser feminista? Juro que não entendo.
   Os istas pretendem possuir o mundo todo e sua simbologia...
   Elizabeth Bennet é tão somente uma personagem voluntariosa, que luta por suas opiniões e pela própria felicidade com unhas e dentes, como quando, por  exemplo, rejeita o Sr. Collins,  o primo esquisitão que cisma de pedi-la em casamento:   

   “- A senhorita deve dar-me vênia, querida prima, para que eu possa crer que a sua recusa da minha proposta não passe de palavras ao vento. As minhas razões para crê-lo, são em suma as seguintes: não me parece que a minha mão seja indigna de aceitação ou que o padrão de vida que possa oferecer seja nada menos do que desejabilíssimo. (...)
Como devo, portanto, concluir que a senhorita não está a falar sério ao rejeitar-me, prefiro atribuir a recusa ao seu desejo de aumentar o meu amor pela incerteza, de acordo com a prática corriqueira das mulheres elegantes.
   - Posso garantir-lhe, senhor que não tenho nenhuma pretensão a esse tipo de elegância que consiste em perturbar um homem de respeito. Prefiro receber o cumprimento de ser considerada sincera. Agradeço-lhe mil vezes pela honra que me fez com sua proposta, mas para mim é absolutamente impossível aceitá-la. Meus sentimentos me impedem de fazer isso. Posso falar mais francamente? Não pense que eu seja uma mulher elegante com a intenção de atiçá-lo, mas uma criatura racional que fala do fundo do coração.”
Orgulho e Preconceito

    Como vemos uma mulher que sabia muito bem o que queria. E o casamento na época, além de ser toda a promessa de felicidade que uma mulher poderia ter, podia  ser uma armadilha convencional, da qual as protagonistas de Jane, inteligentes  que eram,  procuravam escapar escolhendo homens que elas realmente amassem. E elas lutavam bravamente pelo amor. Mas, em nenhum momento do livro vemos uma pregação feminista dessa personagem, que faz jogos de linguagem com o homem que a atrai, ao mesmo tempo em que luta para odiá-lo. É um jogo romântico, dos mais conhecidos na história da literatura. A história clássica de amor&ódio.
   Qualquer personagem feminina da literatura que seja interessante e que tenha uma forte personalidade, já decidem prontamente associá-la ao feminismo, numa apropriação totalmente indevida. É dose quando esses grupos radicais se apoderam de autores e ideias que não são suas pra utilizar-se deles como uma falácia de autoridade pra defender uma causa própria, forçando uma barra.
    Não há heroínas masculinizadas em Jane Austen, elas são mulherzinhas procurando o amor, não comem, não dormem e até adoecem na falta de amor. Elas têm, é verdade, uma grande consciência da injustiça à sua volta - que é o mundo regido para proteger os homens. Mas ainda assim, nunca vi uma heroína Austiniana dizer:
   -Ah, estou muito bem sem os homens...por mim, eles poderiam morrer!
   (Como vejo algumas mulheres de grupos feministas vociferarem...). E ouvi até falar de uma que queria denunciar um homem que curtiu várias fotos suas no facebook, como se o pobre coitado fosse um perseguidor...rs.

Hugh Grant e Emma Thompson, Edward e Elinor(Sense and sensibility)

   Jane Austen viveu em outro tempo, e se há uma centelha de crítica nos livros dela aos direitos das mulheres, isso não estava relacionado diretamente a uma cartilha de Judite Butler precoce. Eu aceitaria se as feministas dissessem , por exemplo, que Orlando de Virgínia Woolf antecipa a revolução trans. De qualquer jeito, acho que as feministas de hoje não leem Virgínia Woolf...estão comendo mosca. Melhor pra Virgínia Woolf que assim, pode descansar no túmulo, sem virar símbolo de nada...rs 
     O universo de Jane Austen é notoriamente marcado por uma luta contra os convencionalismos inúteis, a pureza dos sentimentos e a liberdade das emoções.  São mulheres lutando pelo amor, pela proteção de um homem, um amor entre IGUAIS.  Elas não abriam mão do prêmio maior, que no caso, era o casamento. Que restava a uma mulher afinal? É quase como se elas tentassem salvar a própria pele num universo onde quase nada mais era permitido.  
   As heroínas autinianas lutam para não serem párias sociais. Querem conquistar seu espaço na sociedade, que naquele caso, era o amor e o casamento.

   (Sinto quem eu possa ter ofendido com esse pseudo-artigo...) 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Homem nu,escatologia, vanguardia, ditadura, censura, ideologia de gênero etc

   Naquele canal feminista (que já não consigo assistir nem dizer o nome), porque cansei da propaganda  insistente e chata da ideologia de gênero martelando no ouvido a cada episódio de cada programa e com aquelas mulheres cansativas , repetitivas falando de empoderamentos  femininos, quando não seja uma propaganda qualquer  repetindo essa cantinela , colocaram Marcelo Tas e Cia dizendo que o caso das artes, do homem nu, etc, está sendo usado pela política como cortina de fumaça pra desviar dos verdadeiros problemas do Brasil. Ao mesmo tempo em que escolheram a dedo uma cena notavelmente ridícula de Crivela (que nem precisa disso...rs) dizendo que não ia aceitar essa exposição no Rio de Janeiro. Enquanto isso, é claro, eles enfiam goela abaixo uma propaganda curiosa feita pelos  artistas, cheirando bastante à hipocrisia ,pedindo para o povo não aceitar a censura.
   Isso merece um olhar mais detalhado.
   Se por um lado, a rede globo percebeu que o povo não vai engolir tão fácil assim suas ideologias , como o banco Santander, teve que voltar atrás, eles  também assopraram a ferida. É lógico, eles não vão se arriscar a perder a audiência do povo, esse mesmo povo  que os assiste e a quem eles chamam  sem peias,  de:  “convencionais”, “conservadores”, “mal preparados” etc. Eita, discursinho gasto!
    Tiveram até a cara de pau de chamar um cientista político, usando um argumento de autoridade, um senhor qualquer que só falou obviedades para definir o que era conservadorismo, reacionarismo etc. O método é o seguinte:  ver se rotulando as pessoas com esses palavrões elas sentem “vergonha” de não serem  as descoladas  que a mídia prega e viram as “progressistas” a favor de todo o lixo que eles querem vender. Uma maneira nada sutil de virar o jogo...
    Como a Dona Regina, essa inusitada personagem,  entrou no asfalto como a criança de “A roupa nova do Rei” de Andersen e declarou: “...Mas era uma criança” , e calou a boca deles, prepara que agora vem chumbo. 


Dona Regina: metáfora do "Rei nu"


     Sob o nome maior de Fernanda Montenegro, os artistas que são a favor da exposição, do homem pelado, da rede globo, da lei Rouanet  já fizeram uma campanha. Mais parece uma propaganda política. E é isso mesmo. A propaganda com Caetano, Fernanda Montenegro e outros atores contratados da globo e a serviço dela,  falando tão compenetradamente  e apelando para que o povo não aceite a censura. Que lindo! Mas é um pouco tarde agora, não é mesmo(?), pra falar de censura. Pensassem antes de jogar aquela merda em cima do povo e ainda usar dinheiro público... Também concordo que arte não deva sofrer censura.  Mas, onde, naquele caso, estava a arte? Deixa eu pensar...
    Para os conceitos já nem diria modernos, nem diria  vanguardistas  da arte via Duchamp, era arte. Até porque a vanguarda está morta e o que essa arte faz é velho pra chamar de vanguarda(homem nu expondo o pênis pra uma criança manipular, se quiser ?) .  Ah, isso não tem nada de mais...rs Essas coisas são tão velhas, que , excetuando a nudez,  poderia ser uma aula de teatro da CAL nos anos noventa. E, além de tudo, povinho, vocês não leram “Lolita” e não gostaram? Pois é.
    Voltando à discussão, eu diria que a rigor, arte tem direito à escatologia e até ao mau gosto, à falta de caráter, à indecência, ao descaramento, ao cinismo, ao chocante, ao vazio, ao pensamento inútil, ao nada, ao deserto, ao ponto, a poeira, ao pó.. E  a tudo que se possa imaginar de aversivo, subversivo e muitos ivos. A arte tem direito a tudo, nesse território aiaiai, meu senhor, ninguém pisa. Ah, então , sim, é censura.
   Não adianta a direita espernear. É censura, sim. Deixa a criança viada em paz, por favor...Silêncio!Que a esquerda brasileira vomite todo o seu excremento sobre a humanidade, eles tem todo o direito, sim...
    É arte para esse conceito de arte, que se inventou dentro da academia, dentro de certos círculos  que a aceitaram assim , ad infinitum, que nunca a reviram, que nunca repensaram e que insistem em fazer sobreviver.(Ler Affonso Romano de Sant´Anna é uma boa para quem não se convence sobre essa discussão sobre a arte …)

Vanguardia: Cocô gigante


   Eles vão continuar vendendo e expondo porque eles têm o amparo de curadores, de esquizofrênicos, de empresários, de bancos mercenários, de artistas dispostos a lançar suas neuras no mundo, de jornalistas inescrupulosos, de dinheiro público, de político estrategista, de rede mentirosa de televisão, de propaganda ensaiada e pronta a chamar de “nazistas” e “reacionários”  aqueles que não a apreciam etc . É arte, portanto, do tipo que é puro mercado. Esvaziada de sentido, ou melhor, prenhe de ideologia, e esvaziada de sentido estético. De extreeeeemo mau gosto, é horrorosa e não agrada a ninguém.
    Quem quer ver uma tela com um desenho esdrúxulo, onde se lê: “criança viada”..???
    Really? Eu acho que posso viver sem isso. Acho que a humanidade inteira consegue!!!
    Nada contra uma pessoa achar que deve jogar sua bosta, sua merda, no mundo,  e chamar isso de arte! Que seja! Porém que não se exija que sua neura seja admirada e vista como o bem supremo da humanidade e, pior, que quem não a admire seja considerado retrógrado...
    Vomite, pinte, seja o pior artista bizarro e escatológico do mundo, mas deixe que as pessoas o admirem ou não, deixe que elas decidam se querem aquilo ou não. E não as chame de nazistas ou fascistas, se elas não apreciarem.
    Alguns impulsos doentios dessa gente, que num extremo ato de “vanguardia” tem sanhas de escrever na parede: “COCÔ, eu COMO e eu gosto!!!” e espera que o povo aprecie isso....rs. Que cria, por exemplo,  uma exposição com os absorventes utilizados durante a menstruação...eccca! Mas, você não entendeu , povinho? É lógico que você dormiu no ponto...

Marcha das Vadias: em nome da  liberdade de expressão

    Mas a discussão não acaba por aí: a direita afirma que esse lixo cultural que vem sendo continuamente jogado sobre a sociedade faz parte de uma agenda globalista , orquestrada com a intenção de aniquilar por dentro  a sociedade pra que uns poucos se mantenham no poder, tendo o povo como massa de manobra. Parece uma teoria da conspiração, mas tem sentido quando você pensa em todo o esforço que a família Globo faz pra defender a cultura do lixo. Quem manda nesse país afinal? Nas consciências? Quem domina a consciência do povo tem tudo. É um fato.
    E já tem gente como Luis Rufato que eu amo de paixão, dizendo que a MBL é uma versão do “Marcha da família a favor de Deus e da liberdade” que nos fez afundar no obscurantismo militar...
    O obscurantismo militar foi causado, pra quem não sabe, pelo medo do comunismo que perpassava o Brasil, de que isso aqui virasse uma Cuba, coisa que assustava o povo americanizado e cioso de sua suposta liberdade (que acabou perdendo).
    E, adivinhem? Agora também, como em 64, o povo está ficando assustado e com medo dessa esquerda maluca e “neuropsicopata”, que está  pervertendo  sim,  criancinhas. ( Qualquer psicólogo de bosta sabe que não é bacana uma criança de quatro anos “brincar” com um homem pelado. ). É engraçado que nenhum artista preocupado com a censura, se preocupou com a criança...
    Não é como em 64 quando se dizia que a direita brasileira inventava que os “comunistas comiam criancinhas” . O papo agora é sério. Não é mais história pra boi dormir.  E, se ninguém viu até hoje um comunista comendo uma criancinha inteira, todo mundo agora viu a criança pegando no estranho homem nu...
     Daí existe o "remédio" que o povo vai enxergar, podem ter certeza. E isso sim, é que nos pode levar ao obscurantismo bolsonorista -  o medo da esquerda e suas ideologias psicopatas e não o MBL. O MBL é a consequência. E se, estamos nesse impassse....ah, raciocinem...
    Eu tenho medo de Bolsonaro, esse homem “ obscurantista” (pra usar um termo amado pela esquerda),  mas também odeio essa patrulha venenosa, asquerosa e ladra das consciências que trama o tempo todo e manipula com  uma ideologia tosca, de mau gosto da esquerda brasileira dos últimos tempos... Invoco Zélia Gatai: Anarquista, graças a Deus...rs. E também Cazuza, “ideologia , eu quero uma pra viver”...

Cazuza: "Ideologia, eu quero uma... "

     Principalmente a esquerda tem se mostrado manipuladora, e voraz  quando deixa passar coisas que a sociedade não quer , não se identifica e não é como eles dizem “não está pronta” pra esse mundo tão lindo que eles querem criar, onde “qualquer maneira de amor vale a pena”. É preciso ter respeito e cuidado com as pessoas. Não é o povo que não está pronto. É a ideologia e a moral fuleira e escrota que eles estão criando que enojou o povo. A política do vale tudo. Do deixa passar.  Olha o laissez-faire aí , gente.. Ué, mas o liberal, não era o capitalista? O porco capitalista? Mas, o porco só é capitalista, se não for o porco deles, se for o porco deles, é o papai dos porquinhos...rs
     E, imaginem, se passarmos de novo por uma ditadura? Quem vai pagar o preço? Nós, o povinho, no meu caso aqui, uma anarquista fuleira de baixo calibre, de quinta categoria, que nem vota há anos  e que já teve um pai preso e destruído psicologicamente pela ditadura...
    Uma ditadura militar? Isso seria realmente trágico! Mas é bom a esquerda pensar em até que ponto está sendo responsável por essa resposta do povo que eles chamam de reacionária, e no quanto ela trabalhou por isso, jogando esse lixo, continuamente  sobre o Brasil, dia e noite com ideologias fuleiras e mega esculachadas, de baixo nível moral em todos os sentidos.  E não adianta vir depois chorar pitangas clamando pela falta de censura...


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Empoderamentos 1: feminina , não feminista

     Fui criada numa família onde as mulheres eram fortes e femininas, não feministas. Lembro sempre da minha avó me alertando  em mais uma de minhas muitas discussões com o vovô:
- Não discute com o teu avô, deixa quieto...
  "Deixar quieto" era o "f..."  que ela dava pra não se aborrecer(minha avó era da paz, embora mulher forte, tão forte que sinto que a família se dissolveu quando ela morreu. Ela era agregadora (e  é isso que as grandes mulheres são, na minha cabeça, e não outra coisa...).
  Mulheres de Atenas. Nunca entendi porque o machismo dessa música foi compreendido como feminismo, assim como outras músicas de Chico Buarque que são claramente músicas de malandro macho.  Mas os estudos acadêmicos estão aí provar que Chico Buarque não disse aquilo que disse, disse outra coisa e quem entendeu isso literalmente, é idiota, claro...
   Tem até bloco de carnaval chamado “Mulheres de Chico”, cujo estilo é todo feminista e as mulheres que o criaram, embora “Mulheres de Chico” (com possessivo e tudo) são todas feministas, of course. Essas mulheres, ao que parece, são as empoderadas que existem nos versos, que, aliás eu adoro,  como:
   “a Rita levou o meu sorriso
     no sorriso dela”...
  Ah, bom, agora deu pra entender porque Chico é feminista... 
  Chico quis dizer que “mirem-se” era um alerta, claro. Então por que não disse, ora bolas?
  É  certo que a truculência, a “sujeitice”  das prostitutas, donas de casa, mulatas devassadas pelo patrão e tudo o mais que vem da obra de Chico,  e que incomoda,   tem um quê de dubiedade. Chega-se, desconfiado, com a orelha de pé, a pensar se Chico pensa ou não pensa aquilo o que diz. Mas  muitas destas letras foram escritas para fazer parte de peças teatrais retratando personagens do nosso imaginário nacional, que, tout court, é machista e Chico só faz refletir isso. Portanto , é normal que exista sempre uma mulher ao pé da porta “sem carinho, sem coberta”.
   Recentemente, o cantor foi criticado pelas feministas por escrever estes versos no seu último lançamento:

   Quando teu coração suplicar
   Ou quando teu capricho exigir
   Largo mulher e filhos
   E de joelhos
   Vou te seguir

  Segundo  elas é inconcebível escrever isto e ser tão perverso com a mulher e os filhos, ficando com a amante. Ora, ...as feministas querem tantas mudanças e são tão conservadoras....
   Assim chegamos a um paradoxo: o poeta das feministas, agora é machista!Ora, ora...
   Sinceramente, achei patrulhice demais, essas feministas estão como os pombos, ficando sem limites!
   Estava dia desses pensando nessas questões das mulheres da minha família, e me veio à cabeça esses empoderamentos todos de que se fala sem parar agora...
   Estão nas letras de Beyoncé chamada de mulher poderosa, por nove entre  dez que se dizem feministas (pelo menos as que eu conheço), tenho até uma amiga minha feminista que disse que a “Beyoncé tem direito a cantar o que quiser , fazer o que quiser e se vestir como quiser”.  Imagem queridinha , modelo de empoderamento. E é assim que ela faz. Se veste de maiô pra cantar, sensualizando e fazendo letras como:


   I see it, I want it


   I stunt, yeah, yellow-bone it

   I dream it, I work hard

   I grind ‘til I own it

   I twirl all my haters
   Albino lligators
   El Camino with the ceiling low
   Sippin’ Cuervo with no chaser
  Sometimes I go off, I go off
  I go hard, I go hard
  Get what’s mine, take what’s mine(,,,)



   When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay
   If he hit it right, I might take him on a flight on my chopper, cause I slay

   Drop him off at the mall, let him buy some J’s, let himshop up, cause I slay

   I might get your song played on the radio station, cause I slay

  I might get your song played on the radio station, cause I slay
  You just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay
   I just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay

Beyoncé, agora feminista
   (Aparentemente o poder de Beyoncé é tão grande, tão violento, tão raivoso, que ela sente necessidade de  esbravejar desse jeito e mostrar que pode ter, ter, ter, ter, ter tudo e ser voraz. Lógico que usando o corpo. Elementar, caro Watson... Ah, que canseira!). 
   Está no poder da bunda de Anitta, também territorializada pelas feministas que a veem como um ícone de feminismo porque "ela faz o que quer", palavras de uma delas. Tive que ouvir também que não se pode "desconsiderar a importância do funk  na propagação do direito à liberdade sexual por uma série de cantoras entre elas Anitta, Mc Carol, Ludimilla e Tati Quebra Barraco, em um mundo meio que dominado pelos homens".  
  E que ninguém precisa ouvir , mas deve "reconhecer como expressão cultural e social" . (Ah bom, se eu não preciso ouvir, já melhorou bastante...rs) Só não sabia que a liberdade   sexual precisava de um empurrão.  Essa pra mim é nova...juro!Deve ser por isso, que as adolescentes frequentavam os bailes funks sem calcinha. Se você não sabia por que , agora sabe que era pra dar uma força na liberdade sexual desses nossos dias tão castos...rs.
   Que seja uma expressão cultural , todo mundo sabe ,uma vez que se considera cultura tudo o que produzido pela sociedade, tenha qualidade ou não, mas, isso é assunto pra outra hora. 
 
Anitta : dando uma força pra "liberdade sexual"
   É engraçado que as feministas declarem: “meu corpo, minhas regras” com tanta empáfia e achem normal usá-lo num sentido depreciativo. É como se elas institucionalizassem  a mulher objeto, que agora é  exatamente a mesma mulher objeto dos tempos machistas, só que, por uma mágica, uma lógica secreta que só as feministas entendem, ou os seres extraterrestres, se tornou a VADIA EMPODERADA...cujos homens são meros carneirinhos que ficam olhando , mas não podem se aproximar de verdade, só foder bem e ir embora. E “apanhar na cara”, naturalmente, como diz Anita naquele seu hit...
   Eu não sei exatamente como essa “vadia” pode ter poder, pois é fato que as mulheres continuam vendendo seu corpo e sua imagem, assim como no passado e fazendo tudo pra chamar a atenção,(mais ainda em decorrência da sociedade do espetáculo),...sem falar que a relação com os homens não mudou muita coisa, a julgar pelo modo como eles são tratados por elas , eu diria que piorou.
   (Eu nunca vou entender esse mundo...).
   Se isso é ter poder, prefiro ser uma heroína de Jane Austen...

   Fui!



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Liberal Arts

   
   É um filminho bacana. Já tinha visto uma vez e odiado, achando que era um daqueles filmes, que promete e não cumpre, com problemas de roteiro onde nada acontece, a não ser um blábláblá pseudo intelectual. Mal prestei atenção e devo, com certeza, ter dormido no meio...
   Mas num dia vazio, você acaba dando chance a coisas que já viu e não gostou. Pura falta de opção dos canais por assinatura, que são todos uma merda sem exceção ou a produção cultural da atualidade  é um lixo mesmo. Vamos combinar que o cinema já teve dias melhores...
   Seja como for, dessa vez, eu vi às sete da manhã,  num horário em que raciocino melhor e em que as minhas emoções ficam mais puras...rs
   Numa das primeiras cenas em que o protagonista tem as roupas roubadas dentro de uma lavanderia por um vagabundo e sai correndo atrás dele e, logo em seguida ouve da namorada,:   
- Essa roupa é nova?
 - É, você gostou?’ 
- Não vou te dizer isso. Não é mais minha obrigação fazer você se sentir bem com você mesmo.
enquanto ela empacota uma pilha de livros pra ir embora, eu fiquei pensando:
   “Ok, um anti-herói perdedor clássico, os meus preferidos...”
   E, nessa hora , o filme me ganhou.



   Em seguida ele parte pra uma jornada de volta aos dias de faculdade, onde segue pra  dar apoio a um professor que lhe convida pra dizer umas palavras na cerimônia de homenagem antes da aposentadoria. A cena em que ele chega ao campus da universidade e se joga na grama, feliz, abrindo os braços como se fosse um anjo livre, é sensacional e entrega tudo o que o personagem é: alguém que não cresceu e que sente preso aos anos em que tudo podia ser e ainda não era...
   É exatamente o que eu sentia nos bancos da universidade – uma sensação de que tudo poderia "vir-a- ser", uma sensação estonteante de liberdade, de que eu poderia voar em qualquer direção...
   Esse vir- a- ser é tão melhor, em todos os sentidos, do que a realidade nua e crua.
   E o filme trata realmente dessa questão, que fica clara quando ele conhece uma estudante mais jovem (Elizabeth Olsen) e virgem que decide se envolver com ele. Os dois chegam a ter uma conversa sobre tudo isso, que envolve a promessa de uma vida, depois do campus.

Elizabeth Olsen e Josh Radnor


   É um assunto inesgotável, realmente. Quantas questões envolvem o ato de crescer e ser aquilo que se pode ser, o que se espera ser depois de um conhecimento adquirido nos bancos escolares e universitários. Afinal, a universidade fica sendo ou pretende ser uma pré-reparação da vida que nunca acontece e nunca prepara ninguém...
   Como Borges, eu acredito que as Bibliotecas são metáforas da vida...não é a toa, que quase no fim do filme, ele tem uma reflexão sobre o limite da fuga da realidade através dos livros. Não se pode se fechar numa preparação eterna, para algo que há de vir, e sempre há como se perder entre os livros e as bibliotecas, num eterno vir a ser que nunca se cumpre. Você pode viver eternamente dentro de uma, sem nunca crescer, como se ela fosse um labirinto, como num conto de Borges...ela pode resumir a própria vida, e reiniciar o ciclo do vir- a - ser, eternamente....
   As bibliotecas me atraem como se fossem pedaços do paraíso, exatamente como atraem esse personagem. São representações de um eterno recomeço, de uma eterna busca...
   Há ainda outros personagens interessantes: a professora competente e cínica(e sensacional!) de Romantismo, fria e desiludida; o professor, à beira da aposentadoria, que não consegue deixar o campus, porque se sente com 19 anos, embora tenha uns setenta, talvez...mostrando que uma maneira de se sentir jovem é viver entre os jovens, mas isso não te torna mais jovem efetivamente. Um balde de água fria.
   Mas melhor mesmo é o personagem de Zac Efron, um vagabundo que anda pelo campus dizendo frases feitas, clichês maravilhosos, uma espécie de mentor inculto do protagonista. Legal a cena que ele fala da lagarta virando borboleta e de como ela tem medo da transformação e de como esse medo é inútil, pois ela virará borboleta de qualquer jeito. Elementar, meu caro Watson...



   E, digo eu,  não adianta mesmo ter medo, porque de qualquer jeito, uma borboleta  com asas, por mais assustador que seja voar por aí e perder (ou não) as próprias asas,  vale mais do que uma lagarta que se arrasta...rs

Gostei do filme!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Da série "Fora da Gaveta": Lembrança

   Ele era obcecado por coisas vivas, que se moviam, como eu mesma e minha paixão de borboletinha infantil por caramujos que se pregavam nas paredes úmidas, oleosos, pungentes, em sua vida preguiçosa que eu arrancava e olhava bem de perto como uma cientista na frente de uma célula. Tinha o talento objetivo e preciso de um cirurgião diante de veias inflamadas. Menininho de rua, olhos amarelos, aventureiro, sem camisa, sujo, sem espelhos, sangue italiano, subversivo, desses que se coloca debaixo de árvores para ver as pernas das meninas que lá subiam. Mas a obsessão era só comigo, a menininha “burguesa”, bem arrumada, de pele sardenta, cabelos macios, presos com laços coloridos no alto da cabeça. A dama e o vagabundo. As coisas vivas, ele as aniquilava numa sanha assassina: ratos, gatos, pombos, passarinhos. Acho que me odiava também, como se eu fosse um bichinho frágil, bonito demais pra que ele não tivesse vontade de ver por dentro e teria me dissecado, pedaço a pedaço, cada centímetro da minha pele, como um Dr. Victor Frankenstein, se pudesse. (...) 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Idiotização das gerações: as palavras e a música.

   Se você é professor de Língua Portuguesa experimente fazer uma coisa bem antiga e caída de moda com os seus alunos: um ditado de palavras. Um simples ditado. Peça pra que eles digam depois quais as palavras que eles conhecem. Você ficará surpreendido (e não no sentido positivo) com o resultado. Alguns não vão saber nem escrever as palavras que você irá ditar. Pra mim, isso funciona como um diagnóstico. Daí eu sei quem eu tenho nas mãos e o quanto de trabalho vai me custar. Se um médico pede exames, um professor precisa enxergar com uma lente bem clara a “doença” que tem pela frente.
   A falta de vocabulário, já dizia Paulo Rónai, impede o pensamento. É uma doença, portanto, já que somos seres pensantes. Ou não somos?
   Ah, as palavras.  As palavras são coisas antigas, códigos indecifráveis....eles até se riem de algumas:  “Que palavra é essa, professora?” “Pra que usar uma palavra como essa?” . Às vezes é uma palavra ridiculamente banal, alguma que eu já sabia o que significava desde os meus onze anos, mas eles nunca a viram, NUNCA, e já estão pra ingressar na faculdade, porém  não veem necessidade de usar ou saber o que significam se conseguem se comunicar usando um “qualé”? Um dia usei a expressão:  “a perder de vista” e me perguntaram o que significava “aquilo”...
   Que mundo é esse em que vivem esses jovens? Um mundo sem palavras é um mundo que reduz o homem à bestialidade. E, culturalmente já estamos vivendo essa bestialidade representada nas músicas populares brasileiras atuais, na produção cultural da TV, na imprensa, que mal merece o nome que tem, em todo lugar .
   A falta de pensamento impera em tudo, a mesmice, o olhar viciado, a repetição, a falta de ideias, o veneno do imediato, que canta abreviando as palavras, que não são mais bem vindas.  Eis o que impera no mundo da música que esses adolescentes escutam:

    “Eu quero tchu, eu quero tchã. Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tchã. Tchu tcha tcha tchu tchu tchã”.

   Tudo está dito. Pra que usar palavras?  A onomatopoeia garante a expressividade total….


“Sou simples. Mas eu te garanto. Eu sei fazer o Lê lê lê. Lê lê lê. Lê lê lê. Se eu te pegar você vai ver. Lê lê lê. Lê lê lê”.
    
   Viu só? Que maravilha de expressividade!
    
  Esse aí é o cawboy universitário, ou melhor, o sertanejo otário...rs Elementar , meu caro Watson…

   E nem é a pior coisa que existe. Pior, pior mesmo é o nível do funk criminoso, que anda por aí, com MCs de 12 anos falando obscenidades violentas e sendo consumido normalmente e produzido por gente, obviamente, sem ética, sem gosto musical, sem senso de humanidade, sem amor no coração...pra dizer o mínimo.
Mas as pessoas acham divertido e inocente tudo isso. Acham legal que uma pessoa como Anita faça carreira internacional e seja considerada uma grande  artista  Não é a toa que ela cantou com Caetano na abertura da Olimpíada pra mostrar o Status quo.  Para se consagrar como grande artista. E mostrar quem ‘’é que manda” na música nesse país. Os fãs de Anita e desses funkeiros ferozes (são inumeráveis, mas mal consegui terminar de ver um clipe de um deles) , dizem que eles são o que o    povo quer, têm sua razão de ser.  Para mim, é aviltante....
   Vi inclusive um deles que usa correntes grossas de ouro no pescoço, quilos de ouro, sendo entrevistado num programa de moda bem conhecido, que não vou citar o nome, que não quero me comprometer( dado o momento estranho que estamos vivendo), como se, seu estilo de vida, de música e de se vestir fosse uma coisa bacana, venerável e digna de ser copiada como exemplo, Esse,  tem até nome.  Chama-se: “funk ostentação”.  

Funk ostentação
   Lendo comentários da área de música na internet, que é uma coisa que me interessa e da qual me sinto próxima, pois minha filha trabalha com música, vi alguém dizendo que isso não é só no Brasil, é uma tendência mundial. Dei-me ao trabalho de verificar com calma a letra de uma música de um top americano, que, aliás considero um músico fantástico, devo dizer(o Bruno Mars) , mas vejam a “preciosidade" da letra (traduzida,  aí abaixo):

Vou alugar uma casa de praia em Miami

Acordar sem pijamas
Cauda de lagosta para o jantar
Julio, sirva esse lagostim
Você pode ter isso se você quiser
Ter, ter se você quiser(...)

Pegue a minha carteira agora, se você quiser

Entre no meu Cadillac (garota, vamos rodar umas milhas nele)

Qualquer coisa que você quiser (basta pôr um sorriso no seu rosto)
Você merece, gata, você merece tudo
E eu vou dar a você

Estas joias de ouro brilhando 

Morangos e champanhe no gelo
Sorte sua que é disso que eu gosto, é disso que eu gosto
(...)

Sexo perto da lareira durante a noite

Lençóis de seda e diamantes, todos brancos
(...)
Eu estou falando viagens para Porto Rico
Diga a palavra e nós iremos
Você pode ser a minha safadinha
Garota, e eu vou estar no ponto, gatinha
Eu nunca faço promessas que não posso cumprir
Eu prometo que você vai sorrir e nunca vai querer ir embora

Maratonas de compras em Paris

Tudo de 24 quilates
Dê uma olhada no espelho
Agora me diga quem é a mais bela
É você? (É você?) Sou eu? (Sou eu?)
Diga que somos nós (diga que somos nós) e eu vou concordar, baby


   Remete à ostentação, ou não???
    É claro que isso se deve a questões mercadológicas... Tenho certeza que um músico tão bom quanto Bruno Mars, pode cantar de outra maneira e servir a outros deuses melhores do que ao rei da futilidade e do vazio existencial. Mas não existe mais o músico que faz o que quer...
   É claro que essa idiotização serve e interessa a alguém... Por outro lado, há uma elite intelectual que apoia, através de movimentos midiáticos essa idiotização(lembrando da “presença de Anita”, sem trocadilhos com a série globete,  rs,  nas Olimpíadas) até mesmo , pasmem, professores universitários e intelectuais, gente ligada ao grande poder.Claro, essa gente fatura e fatura muito com isso!
   Veja-se programas como o  “The Voice”  brasileiro em que Claudia Leite detém poder de grande dama da música , e Michel Teló aparece como representante do gosto da classe popular. Mas,  como é que o povo, essa entidade chamada povo,  passou a gostar de coisas assim? Será que ele tem oportunidade de conhecer outras coisas? 
   Quando eu era criança ouvíamos boa música,  de tudo: Roberto Carlos (das antigas , antes de “embregar”), Caeteano Veloso, Stevie Wonder,Tim  Maia, Beach Boys, Nina Simone, Secos e Molhados, Raul Seixas, Rita Lee, só pra falar de 1%. Raul ; Rita;  Lobão, o doce maldito, por exemplo,  frequentavam programas populares como o Chacrinha. Mas o que se vê nos programas populares hoje em dia?  Sem falar do que meu pai ouvia: música clássica, ópera,Frank Sinatra,  Lupicínio Rodrigues, Pixinguinha (e a música de ninar que eu cantava pra minha filha dormir sempre foi “Rosa”), coisas assim...sem falar dos fados portugueses (isso pelo lado do meu avô,  que era português...me lembro de Francisco José: “De quem eu gosto nem às paredes confesso”rsrs); minha mãe gostava de sambistas como Paulinho da Viola,e tinha paixonite aguda por Chico Buarque. Também adorava Elis Regina. Imagina o caldeirão cultural a que éramos submetidos!

Pixinguinha, o Rei

    Mais tarde apareceu a Radio Rock, a Fluminense, que tocava Blitz, Legião, U2, The Police, Lobão, Paralamas, e todo o rock nacional emergente (que tinha boas letras, irreverência, toques políticos  e qualidade artística), e  poderia ser ouvido indiscriminadamente por todas as classes.Mesmo que se diga que a classe popular não gosta de rock, o que é uma mentira , que se pode provar facilmente...afinal , os Beatles , os Stones e tudo o mais vieram das classes populares e hoje em dia ainda fervilha, tentando sobreviver,  o rock na Tijuca, no Rio de Janeiro,  dentro de uma classe média popular, só pra falar do que eu sei e conheço...

Lobão,  doce maldito 

    As rádios tocavam até Zé Ramalho que hoje em dia, é considerado um músico da elite. Sim, os versos poéticos, quase surrealistas, da música de um Zé Ramalho apareciam e podiam ser apreciadas na rádio. Hoje em dia, os filhos daquela geração que apresentam a música para seus filhos,  ainda têm acesso à boa  música.E os outros? E os que virão? O que vai sobrar pra eles?
   Quem está por trás disso? É bom a gente pensar nessas coisas...
   Cansei. 

   Volto outra hora!

De presente pra vocês que me leem, “Chão de Giz”;


sexta-feira, 30 de junho de 2017

A celebridade-embaixatriz da culinária, Bela Gil

Da série: Não se leve tão a sério

   As pessoas estão secas por histórias midiáticas, que vendem e passam a "bombar" na internet. Qualquer narrativa vale. Tudo vende. O cotidiano de qualquer um interessa. Nos mínimos detalhes. Vejam-se as celebridades que narram suas belas histórias dignas de exemplos e acompanhamentos fidedignos: Kardashians, Bela Gil, etc.
   As pessoas ganham programas na televisão pra expor sua vida de forma inexplicável. A quem interessa isto? Pelo visto a muita gente, já que existem esses programas, essas vidas “narradas”, esmiuçadas, a ponto do enjoo e do espanto moral. E tudo não passa de uma maneira de esculpir uma imagem e fazer os idiotas pagarem por ela. É a doença da década.
   Não é que eu tenha implicância com a Bela Gil( já falei dela aqui uma vez) -porque como costelinha de porco, a acho meio chatinha e, na boa, superestimada- ,  como os fãs mais ardorosos da filha do Gilberto Gil podem pensar.  Às vezes a acho simpática e ela de vez em quando esbanja um ar de coleguinha da escola, mas às vezes....ai ai ai,  ela pede pra  falarem dela , deve  ser fã daquela máxima:  “falem mal de mim, mas falem”, enquanto diz que não dá importância pra isso. Mentira. Ela gosta dos holofotes, enquanto fala:  “não tô nem aí, nada me afeta”. Se não fosse assim, não tentava bancar a embaixatriz do Brasil na questão da boa alimentação e não usava a cada minuto a influência do clã Gil. Sim porque aquilo é um clã e não no bom sentido, se é que alguém aí me entende. Um clã ou uma máfia como queiram, aliás, como outros muito mais perigosos que existem no Brasil e nos vão enfiando, vocês sabem, goela abaixo. Cuidado com essa gente...
   Bela Gil se autoproclama, além de chef (que nunca foi)  -ajudada por um passaporte de Alex Atala e outros que enchem a bola dela sem parar - ,  uma missionária  da boa nova alimentar. Diz que pretende viajar pra doutrinar em cada cantinho interiorano do país  e já vejo a hora dela querer  abrir um canal de culinária , ou, pior,  se candidatar a alguma coisa, como seu próprio pai que foi Ministro. O que é muito fácil pra ela, convenhamos.  E, depois ela vai dizer em entrevistas o quanto foi difícil e batalhou por isso. Mas não é tão difícil assim pra quem se autopromove de cinco em cinco minutos com um celular na mão no próprio programa, narrando cada passo de si mesma...Aliás, o clã Gil vai de vento em popa impulsionado por esse talento midiático da Bela, que é franzina,  mas,  de fraquinha não tem nada e administra o programa “Vida mais bela” com mão de aço, usando o espaço como um arremate pra autopromoção constante e tediosa.

E a linhaça ...
   Senão, vejamos: no programa dela toca insistentemente tropicalismo, músicas do pai, do irmão, do Caetano Veloso ou aquelas músicas horrorosas da Bahia. Uma janela pra promoção de si mesma, da própria família e dos amigos que lhe interessam.  Há um tempo, isso se chamava nepotismo. Mas, agora, essa palavra caiu de moda...
E ela manda bem no marido, mulher forte é assim mesmo, como prega a nova onda feminista. Deve ser por isso que o coitado já virou motivo de piada no meu trabalho, quando aparece no programa com cara de quem precisa de um bom bife mal passado (apesar de bonito, tem cara de anêmico). E vez em quando fala rancoroso pra câmera, entre caras de desprezo pra própria mulher, de quem espera de vez em quando uns beijinhos, pra não pegar mal: “Quem cozinhava antes era eu....”

"Quem cozinhava antes era eu"
   Pois é, meu irmão, agora quem canta de galo e de panela  é ela e ele só diz amém e segue atrás assessorando a vida da grande mulher  e carregando o bebê  (que, por sinal,  é  muito  lindo , fofo e usado pra derreter corações como o meu) . Sem falar na filha, que também é usada como modelinho de estilo de vida saudável, enquanto procura os funcionários do GNT pra lhe dar chocolate escondido da mãe (opssss.....)
   Preta Gil que não canta, mas é cantora, que o diga. Vira e mexe se aproveita da irmã pra aparecer um pouquinho.
    E agora o clã Gil inteiro domina parte do canal GNT, que tenta emplacar também a banda do irmão que compõe música “tropicalista- canção de ninar”, com uma cantora (a esposa dele, se não me engano) que não canta lá muita coisa, mas sussurra bem (estilo Nara Leão gripada) e faz pose de celebridade-família grávida. Ou foi mera coincidência a exibição deles no “Família é família”???
   Este aqui, o “Família é família”, é uma espécie de pregação dos “novos” formatos sociais, que, a julgar pelas famílias que lá estão, são quase todos egressos de Woodstock. O  que  o programa mostra, de fato, é o formato “república de estudantes” para os crescidinhos... rsrs. Tendência atual de tempos de crise, mas longe de ser novidade, como faz crer o programa. Repúblicas estudantis, e comunas yogues,  políticas, teatrais , de simples amizade, existem há séeeeculos, me poupe...
   Poderiam deixar o clã Gil de fora dessa, foi um pouco demais. E , como eu não acredito em coincidências, só  tenho a dizer que onipresença tem limite e cansa. E digo isso, prá não dizer que foi pura lavagem cerebral, manipulação pra vender (mas, não a república familiar...).
   E, claro, Bela Gil bomba porque muitos gostam dela e/ou enfiaram na cabeça que precisam dela pra lhes dizer o que comer e como viver, como se ela tivesse um oráculo da felicidade (como drogados precisam de droga, brasileiro cria dependência de tudo, a porra da falta de identidade); e outros, a acham tão chata, que esse ridículo e chatice a torna digna de nota.
   Isso significa, em última instância, que bancar o bobo com propriedade, com pose de quem sabe o que está fazendo, algum conhecimento do riscado e muita autopromoção, pode te tornar uma “celebridade”. Ajuda se você tiver uma família eminente. Tente.